Smoke No Smoke
Hoje, 17 de Novembro é o ‘Dia Nacional do Não Fumador’. É o meu dia.Por acaso é nacional (e até é bom), mas podia ser mundial. Aliás, 31 de Maio é o ‘Dia Mundial Sem Tabaco’. Quem é que inventa estes dias? Será que já existem dias nacionais para os 365 possíveis? Digo 365 porque não acredito que exista um dia que só seja comemorado de 4 em 4 anos. E para os dias mundiais? Ainda haverá vagas? Será que quando esgotarem os dias - tal como as matrículas dos automóveis - arranjam novas classificações, tipo “Dia Universal”? eu tenho com cada preocupação…

No final de 2005, após muitos anos a fumar dois maços por dia, andava com umas ideia esquisitas. Uma voz interior dizia-me: “Tú deixa de fumar. Olha que isso é mau.”. Incomodado com esse ‘besouro’ constante no meu ouvido, eu lá ia pensando que até seria uma boa ideia.
O problema é que a minha cabeça começa com pensamentos estranhos: “Último cigarro? Último? Eu não gosto de pensar que existe um último. E se é o último, será que o tenho de fumar de forma diferente? Dou passas pequenas para prolongar o prazer – tipo cigarro tântrico – ou dou passas prolongadas como se não houvesse amanhã? E se eu fumo apenas porque tenho um tique de mão? O que farei depois? Ponho a mão no bolso? Procuro uma caneta para brincar? Que desculpas vou dar para sair a meio das reuniões ou das salas de espera?”. Eram demasiadas questões e eu não tinha resposta para cada uma delas.
Nesse final de 2005, à noite, eu dava por mim a fumar que nem um doido, na esperança de ficar de tal forma enjoado que nunca mais pensasse num cigarro. O problema é que no dia seguinte, já estava de novo com um cigarro na boca. Mas porque é que eu não engravidava? Talvez assim conseguisse.
O ser humano comum ainda tem uma vantagem sobre mim. Consegue mastigar pastilhas elásticas sem cuspir logo de seguida chumbo dos dentes. Até isso estava contra mim. Nem podia ter uma alternativa mascável em relação ao cigarro. Infelizmente, a natureza não me bafejou com uma dentição de leão. Ainda pensei no chupa-chupa – têm sabores horríveis – e no palito de madeira – tipo Lucky Luke.

Por coincidência, tinha andado a fazer uns exames no final de 2005. Nessa altura, foi com espanto que ouvi o médico dizer: “Expirou o prazo de validade da sua vesícula!”, “perdão!? – pergunto eu”, “Sim, encontrei a nota do fabricante que dizia: ‘do not use after Dec 2005. Made in Hong-Kong’ , assim, teremos que retirar essa peça defeituosa!”
Como os tipos do signo Virgem são geralmente super hipocondríacos, fui logo à Net ler tudo sobre operações, anestesias, complicações, recobros, etc. Nessa investigação, li que no caso de uma operação, o ‘talhado’, uma semana antes da data de corte, deveria evitar fumar. Eu lá tentei, mas na véspera ainda fumei.
Pelas 11h do dia 3 de Janeiro de 2006, estava eu a acordar no recobro, quando fui atacado pelo seguinte pensamento: “vou pedir para me levarem lá fora para fumar um cigarrito.”. Este pensamento impuro durou poucos segundos. Apenas o tempo até que eu inspirasse com mais força e dissesse para dentro: “das**** que isto dói pra caramba!”.
No dia seguinte, talvez pela excelente refeição de soro que estava a ter, fui atacado pelo seguinte pensamento: “vou pedir para me levarem lá fora para fumar um cigarrito.”. Virei-me tipo tarzan para fazer o pedido quando grito: “das**** que isto dói pra caramba!”.
Nos dias seguintes, já em casa, como estava ‘distraído’ com as dores, sei que os apetites de um cigarro eram mais espaçados. Por outro lado, a ‘maluca’ da princesa mor tinha deitado fora tudo o que era maços de cigarros. Dessa forma, eu estava num autêntico desmame. Não me estava a imaginar a telefonar para o 112 a pedir que me fossem comprar cigarros.
Queria aproveitar para mencionar alguns aspectos perfeitamente horríveis, resultantes do facto de não andar a fumar:
- Após subir escadas, consigo ter uma conversa coerente com alguém que encontro no seu topo;
- As minhas roupas cheiram a lavanda, mesmo ao fim do dia;
- Consigo farejar um cigarro acesso a 1Km de distância;
- Quando fico intolerante, o meu coração não parece que vai saltar pelos tímpanos;
- O meu hálito já não mata os mosquitos mais próximos;
- Descobri que as pontas dos dedos da mão direita são cor-de-rosa. Sempre pensei que amarelo era a cor de nascença;
- As enxaquecas são mais raras e nunca mais tossi tipo cão do ‘siber’ quando vê coisas giras na Net;
- Nunca sei que destino dar aos cerca de 150€ que me sobram todos os meses;
Quanto a aspectos positivos, apenas consigo identificar dois:
- aumentei 8kg. Sempre fui um ‘trinca-espinhas’, 1.80m e 87kg, de maneira que este peso a mais até me deixou mais ‘composto’;
- nas primeiras semanas, descobri que podia ter ido para a Ópera, tais eram as vezes que dava comigo a ‘gritar’ por tudo e por nada;
Uma coisa engraçada, sei que fumei no dia 2 de Janeiro de 2006, mas não me consigo lembrar como foi, nem se gostei. Afinal, o ‘último’ teve pouco significado.

De uma coisa eu tenho a certeza. Sei que nunca vou perder a vontade de fumar. Sei que muitas vezes, quando as minhas narinas detectam nicotina no ar, a minha boca saliva. Tenho também quase a certeza que se fumar um cigarro existirá elevada probabilidade de voltar a fumar. Um cigarro hoje, um cigarro amanhã, dois cigarros depois de amanhã,…, uma coisa leva à outra e estarei a comprar um maço para fumar.
Sei que os desejos são cada vez mais espaçados e que cada vez é mais fácil tirar o impulso da cabeça. Sei que já passaram 315 dias desde a última vez que fumei. Sei que até à hora de publicação deste post ainda não fumei e que irei para casa sem fumar. Amanhã logo se vê.
Se no fim desta conversa sobre tabaco e perante todas estas imagens anti-tabaco, você tiver ficado com vontade de fumar um cigarrito, é sinal que talvez ainda não esteja preparado para tentar deixar de fumar.
Por fim, se precisa de uma desculpa para deixar de fumar, tente saber junto do seu médico se tem alguma peça do seu corpo fora do prazo de validade. Convém que seja a vesícula ou apêndice.
Smoke? No Smoke?
Governo criticado pela demora na aprovação da lei anti-tabaco
Fundação Portuguesa de Cardiologia

4 Comentário(s):
Muito bom post, sim senhores. Dei por valioso o tempo que ganhei a lê-lo.
Gostei muito...Parabéns pelo post! Os outros comentários (smoke? no smoke?)levariam-me muito tempo e muitas reflexões,por isso, fico mesmo por aqui...
Nice post Mr. Anderson...
Eu também sou uma ex-fumadora ;-) e que intensa fumadora eu era... Mas já passou. Também depende das pessoas é certo, mas a ansiedade e a vontade de fumar começam a desaparecer. Já lá vão 6 anos e já começo a perguntar-me como consegui fumar tanto? Confesso que durante estes 6 anos fumei ocasionalmente, em passagens de ano, Carnavais, ou em noites em que a consciência já não é ponto dominante, mas... a sensação é sempre tão desagradável no dia seguinte que nunca mais me lembro de pegar novamente num cigarro!
Agora confesso uma coisa, em sonhos nunca deixo de fumar! Fumo e fumo bem!! Deixo para os psicólogos o significado ;-)
Belo dia esse o do não fumador!
Como não sou nem nunca fui fumador activo não consigo ter a noção exacta da dificuldade de se deixar de fumar. Imagino que seja uma sensação semelhante à que sinto quando a minha conta da bwin fica a zeros e não tenho permissão para depositar lá mais uns trocos até a nova época começar. Acredito no entanto que se fosse subir um dos 7 maiores picos do mundo com o João Garcia passado uma semana já estaria a ressacar com os mesmíssimos sintomas de um ex-fumador. Um fumador passivo em Portugal está sujeito a inalar quase a mesma quantidade de substâncias nocivas do tabaco como um fumador activo. A nova lei sobre o tabaco se algum dia sair e se alguma das alterações propostas de facto figurar lá, será um passo para formalizar o que é hoje deixado ao bom senso de cada um. O tabaco não me incomoda a mim em particular excepto em situações específicas, como quando estou a comer, etc. Mas admito que possa incomodar outras pessoas e não pode ser o bom senso das pessoas a decidir se deve ou não fumar naquele sítio, mas deve estar definido legalmente. Assim como os sítios onde se pode fumar sem se ser incomodado, pois os fumadores têm tanto direito de fumar como os não fumadores de não serem fumadores passivos.
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