quarta-feira, dezembro 13, 2006

Não quer um divórcio nem ficar sem os filhos, pois não?

Pai,
Já percebi que quando me tratavas por «A minha prinxêsa…», estavas só a querer agradar.
Fui viver para casa da minha amiga Inês. Os pais dela são uns fixes. Quando eu lhes contei que ainda não tínhamos TV Cabo em casa, riram-se. Foram os primeiros a querer que eu fosse para lá.
Beijos,
Rita

P.S: escusas de ligar. Eles não têm muito boa impressão tua.



No seu artigo semanal no Expresso, Miguel Sousa Tavares (MST) escreve sobre dois casos exemplares, sendo um deles relativo à actual campanha da TV-Cabo.
Cito:
«Está nas ruas uma campanha publicitária de «outdoors» da TV-Cabo que é uma verdadeira infâmia. Nela, e no início, expuseram uns cartazes onde um filho anunciava ao pai que se tinha ido embora de casa porque ali não havia TV-Cabo…»
«É inútil gastar tinta a explicar o que é evidente: que esta campanha ofende os pais, os maridos, as mulheres, os filhos e as empregadas domésticas. Que ofende os valores mínimos do casamento, da família e da vida em sociedade. Presumo que algures, infalivelmente, existe um organismo qualquer do Estado que tem por missão vigiar o código ético da publicidade e actuar quando ele é violado. Mas também presumo, por razões à vista, que o dito organismo deverá ser habitado por uns quantos personagens que nada fazem para justificar o vencimento e regalias da função…»
«Pois era bom que acordassem, desta vez: a TV-Cabo deve pagar esta ousadia com uma multa que seja suficientemente grande para a fazer lamentar o quanto ofendeu e não voltar a ter a tentação de repetir a brincadeira no futuro;»
«Se a TV-Cabo me quiser processar pelo que aqui escrevi, aposto que há-de haver um mestre pronto a emitir parecer de que a sua campanha publicitária integra os valores profundos da Constituição que nos rege.»


Desta vez estou aqui para dizer que estou plenamente de acordo com o artigo escrito pelo MST. Fiquei com uma certa sensação de desconforto, desde que vi o primeiro spot publicitário na televisão. Aquela imagem do Artur que lê um bilhete da Laura a dizer que tinha ido para caso do Pedro, no meu entender, roçava um limiar do mau gosto. Posteriormente, seguiram-se os spots onde a filha, o filho e a empregada doméstica também decidiam ‘abandonar o barco’. Aqui, efectivamente, achei que o mau gosto tinha sido atingido.
Já no meu post anterior,
“Há coisas fantásticas, não há?”, eu considerava que o estereótipo do anúncio focava muitas situações que poderiam esconder graves problemas dentro do seio de uma família. Em vez de se procurar uma união familiar, havia um anúncio a promover a distribuição do sinal de TV por toda a casa. Será essa imagem representativa das famílias actuais, em que todos os membros se isolam a ver televisão nos seus “aposentos”? quando o mundo ficou uma vez mais chocado com a morte de duas jovens, vítimas de anorexia, será prudente achar normal que os filhos se possam isolar num quarto a ver televisão?
Desta vez, os anúncios da TV-Cabo exploram a imagem que nas casas onde não existe TV-Cabo, há o risco de haver divórcios e afastamento na relação entre pais e filhos. Tal como diz MST, ofende os valores mínimos do casamento, da família e da vida em sociedade.


Tem-se assistido a várias campanhas que exploram o caricato de forma a captar a atenção dos possíveis clientes ou compradores. Enquanto efectivamente nuns casos, as audiências são alertadas de forma subtil, com um humor mordaz e eficaz, noutros casos, assiste-se a uma total falta de gosto em que a mensagem não tem qualidade nem obtém os resultados desejados.
Mas acima de tudo, se existe esse tal organismo do Estado que devia vigiar o código ético da publicidade, a imagem que passa para nós, audiência dos anúncios, é que este organismo não anda a desempenhar o seu papel tal como seria de esperar.

Em tempos, havia um anúncio de um carro – cuja marca ou modelo não me recordo – que era um excelente exemplo de violação de regras de bom senso. O anúncio apresentava um adolescente na berma da estrada a pedir boleia. Nisto, começava-se a ouvir o roncar de um motor e passava algo tão rápido que nem se via.
Está provado que o excesso de velocidade é a principal causa de acidentes nas nossas estradas. Então, qual seria o impacto desse anúncio num miúdo de 19 anos, com a carta acabadinha de tirar e com um carro prometido como prenda de anos? Será que ele não o iria querer? Como é que existem leis severas contra o tabaco, com os maços a exibirem enormes mensagens: “O tabaco provoca morte lenta e dolorosa”, e depois, não existe qualquer proibição em anúncios que são um autêntico chamariz para a velocidade nas estradas?

O próprio Estado é um péssimo exemplo. No fiasco da campanha rodoviária deste ano, o anúncio original dizia: “Todos os anos cai em Portugal um avião cheio de crianças. É este o número…”. Depois de inúmeras críticas, o anúncio foi alterado para “Um avião cheio de crianças. É este o número…”. Será possível que quem tenha encomendado este assunto não tivesse um pingo de bom-senso? Sabem quanto custou este anúncio ao Estado e por associação, a todos nós?

Uma sugestão. Para não passar um Natal miserável, sozinho na sala a olhar para a árvore de Natal, sugiro que adira a esta campanha da TV-Cabo, não vá o diabo tecê-las. Afinal, são só mais 15,5€/mês a juntar às suas outras inúmeras prestações.


3 Comentário(s):

At 12/13/2006 08:51:00 p.m., Blogger V andrade disse:

Confesso que só agora vi o anúncio. Se tenho andado a dormir? Não exactamente, mas o único programa que tenho acompanhado na tv é o "Everybody loves Raymond" que dá às 22.00 na sic comédia, canal que, graças a Deus, quase não tem anúncios. Graças a Deus ou nem por isso, porque parece que este canal vai acabar dia 31 de Dezembro (o que não é um dado muito abonatório quanto à sua popularidade).

Quanto ao post. Very well Mr. Anderson! Gostei! E concordo quer com o MST quer consigo.

 
At 12/14/2006 09:33:00 a.m., Anonymous Anónimo disse:

A primeira vez que vi o anúncio pensei: "eu devo estar lerda!". Isto porque eu não queria acreditar naquilo que pretendiam anunciar e a forma como o faziam... mas depois passadas alguma vezes de o ver, dou comigo embasbacada a olhar para a TV e a perguntar-me se ninguém reparará nesta m****????

Este post veio confirmar que não estou sozinha! Obrigada Mr. Anderson. E MST muito bem.

Outras questões se levantam: e os actores que participam nestes anúncios não têm um pingo de bom senso?? Parece que não. Eu avalio as pessoas pelo seu trabalho (neste caso) e aqui desceu na minha consideração.

 
At 12/14/2006 10:08:00 a.m., Blogger HRocha disse:

Pronto está decidido vou mudar para a CaboVisão. Isto enquanto não conseguirem piratear a tvcabo de novo... De facto esta publicidade é de muito mau gosto.

Estranho é a unanimidade em torno do ex-tão-odiado MST. Será só por este acertado artigo ou por ele ter pedido a demissão do seu presidente?

 

Enviar um comentário

<< Home