Há coisas fantásticas, não há?
Este texto relaciona-se com um anúncio ainda recente da TV Cabo. Se não estou em erro, estava relacionado com uma campanha em que a TV Cabo, para novas adesões, colocava de forma gratuita o sinal de TV em todas as divisões das casas dos aderentes. Bom, este post não vai contra a TV Cabo. O que me interrogo, é se a forma como o anúncio está apresentado, é representativa das famílias actuais e do suposto distanciamento que cada vez existe mais entre os pais e os filhos. Passo a explicar:1) Filha do Meio: O anúncio começa com uma mocinha bastante alta e espadaúda, a fazer uns passos de dança em frente á televisão. Primeira questão. Tratar-se-á de uma adolescente “oca”, ainda sem rumo na vida, cujo principal interesse é apenas ver vídeos na MTV e sonhar em ser uma estrela Pop? Será que também é daquelas que gritam “Porporinas!? tchau, vou ligar á Bé!” O facto de ser espadaúda não revelará também uma alimentação deficiente, facto que os pais ainda não detectaram?
2) Gémeos?: Não sei se são. Entram os filhos mais novos, Tico e Teco e começam a gozar com a filha do meio. Acto normal entre filhos de idades diferentes. A filha do meio, pega na TV e pisga-se para o quarto. Entretanto, estas crianças vêm vestidas com capas e capacetes. Será que pensam que têm super-poderes? São ainda vestígios do Sangoku (ou algo semelhante) ou outras animações japonesas cheias de violência? Será que os pais já lhes explicaram que só os super-heróis da banda desenhada são capazes de voar? Que não devem tentar algo semelhante? Não sei. Como estão sozinhos a ver TV…
3) Filho mais velho: Entra uma figura tipo Oliver Khan, com algo na mão, tipo bebida energética - suponho. Em vez de ficar a “controlar” os seus irmãos mais pequenos, não. Deve dizer algo do género: “Putos! Pirem-se!” e senta-se no sofá com a sua bebida – será anabolizante? O Tico e o Teco pegam na TV e piram-se para o quarto.
4) Chefe de família?: O suposto chefe de família entra na sala com um regador e dirige-se para uma planta branca. É atrasado? Não lhe explicaram que a planta é de plástico e não é para regar? Alguém que rega uma planta branca não deve gostar muito de ver futebol, logo, o “Oliver Khan” suspira e, entre os dentes, murmura qualquer coisa do tipo: “Lá tinha que aparecer este. Mas porque ele não toma os comprimidos?”. Pega na TV e pira-se para o quarto. Entretanto, o tal chefe de família, com ar babado, fica a ver o Fashion TV – o anúncio é para todas as idades, porque senão, o que ele queria ver sabemos nós.
5) Esposa, dona-de-casa?: a dita esposa do chefe de família entra na sala e olha com reprovação para o tipo com quem está casada, faz agora 20 anos. Este, em vez de sentir culpa no seu comportamento absolutamente ignóbil, podendo dizer algo do género: “Oh pá, desculpa. Não foi por mal. Não torna a acontecer. Tu és a luz da minha vida…etc.”, não. Ele, dá o regador a mulher e olha para ela como que a dizer: “Que foi? Quando casaste comigo, sabias perfeitamente que eu era tarado por manequins de passerelle!”. Pega na TV e pira-se para o quarto para ir fazer sabe-se lá o quê. Por fim, a esposa senta-se no sofá da sala a pensar como a sua vida chegou aquele ponto, o que terá feito de mal, onde estão os seus filhos, etc. etc.
Será esta imagem representativa das famílias actuais, em que todos os membros se isolam a ver televisão nos seus “aposentos”? Quando só existiam 4 ou 2 canais, as hipóteses de escolha eram tão reduzidas que pelo menos todos viam a TV juntos. Agora, com 50 ou 100 canais e as TV plasma ou LCD a serem chamarizes para o consumo, estão criadas todas as condições para o isolamento de todos os intervenientes.
Também recentemente, deu uma reportagem no canal 1 sobre os viciados em jogos de computador. Aparecia lá um tipo que chegava a jogar – se não me engano – cerca de 8 horas por dia. Mais, parece que na pior fase, já nem tinha tempo para se alimentar. Os pais, agora mais descansados, diziam que ele estava melhor e que já fazia as refeições normais. Então, lá se via o tipo a pegar no prato, a sair da mesa onde os pais estavam sentados, e ir comer para a frente do computador. Para mim, isto é mesmo algo de muito grave. Que pais são estes que deixam os seus filhos chegarem a esse ponto? Será que pensam que o jogo, só pelo facto de ser jogado no computador, contribui para o desenvolvimento do intelecto dos seus filhos?
Há coisas fantásticas, não há?

3 Comentário(s):
Mr. Anderson.... óptimo post... é uma reflexão brilhante, embora infeliz...porque concordo que há muitas famílias a reproduzir este modelo anúncio TV Cabo :-( O que mais entristece é a alienação das pessoas, a infiltração neste corre corre, o desespero por ter mais e melhor... e não é para parecer lamechas, mas vão esquecendo os pequenos pormenores e os grandes valores... acho que a maioria de nós esquece que pode partir a qualquer momento... assim veriamos as coisas com outros olhos...
Obrigada pelo post, pela reflexão, e pela partilha de opiniões!
;-)
Gostei muito do post... a condizer com o meu dia do colégio...
Muito bom este post! A maior parte dos pais actuais não tem pacência para essa coisa "chata" que é educar.Educar é doloroso, às vezes é repetitivo, é, sem dúvida, cansativo. Mas é a tarefa dos pais. Não educar é como ser cirurgião e não operar, ser professor e não dar aulas, ser jogador de futebol e não jogar. Mas a maior parte dos pais simplesmente não está para isso.
Enquanto os filhos estão em frente ao computador ou a ver televisão no quarto não chateiam e isso é bom, por isso distribuem-se televisões e computadores como dantes se distribuia atenção e estamos todos felizes.
Enviar um comentário
<< Home