domingo, novembro 19, 2006

Bestas vs Bestiais

Hoje, 19 de Novembro, celebra-se o Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada, instituído em 2002 pelo Papa João Paulo II. Em Portugal morreram 70 mil pessoas devido a acidentes rodoviários no século XX. No Mundo inteiro, as estradas fizeram mais de 25 milhões de mortos. O que é que isto tem a ver com o título do post? já lá chego.

Um aspecto positivo. Apesar destes números assustadores, resultantes da guerra civil diária que ocorre nas nossas estradas, importa assinalar um dado importante: Neste momento, somos o segundo país da Europa que mais reduziu as mortes em acidentes. Tudo indica que este ano, Portugal deverá ficar abaixo da fasquia negra e simbólica dos mil mortos anuais em acidentes rodoviários. Refira-se que em 1998, o número de mortos ascendeu a 1865, existindo desde então uma tendência para a diminuição anual desse número. Isto revela que tem existido maior consciencialização dos condutores e que os novos códigos da estrada têm surtido efeitos.

Um aspecto negativo. Neste dia, aproveitei para ler o Expresso. Na página 7, do primeiro caderno, paro para ler o artigo do Miguel Sousa Tavares (MST). O artigo girava em torno de uma deslocação do MST à ‘província’ alentejana para tratar de assuntos pessoais. Não me chocou saber que tinha comido salmonetes de Setúbal. O que me chocou foi ler o segundo parágrafo do seu artigo. Assim, para quem não teve oportunidade de ler esse artigo, transcrevo aqui as partes mais interessantes:
«Faço a A6 num instantinho, cruzando-me com não mais do que rês carros…» bom, o conceito de ‘instantinho’ diverge de pessoa para pessoa;
«…em nenhum outro lugar do mundo vi uma auto-estrada tão boa e tão deserta.» bom, talvez o ‘deserto’ convide ao ‘instantinho’;
«Mas é aqui, precisamente, onde não passa nada e só uma besta consegue ter um acidente, que já fui apanhado duas vezes em excesso de velocidade. Mas percebe-se: 90% das mortes na estrada, em Portugal, acontecem fora da auto-estrada; e 90% das multas por excesso de velocidade são cobradas na auto-estrada – chamam a isto “prevenção rodoviária”» bom, aqui parei de ler e saltou-me a tampa.
Antes que voltem a ler a transcrição, eu repito «…só uma besta consegue ter um acidente…»

Desculpem!? Se eu for na A6 e tiver um acidente sou uma besta? Eu li este artigo no Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada. Neste dia de luto e dor infindável para muitos Portugueses, existe um senhor que diz que quem tem um acidente na A6 só pode ser uma besta. Como se isso não bastasse, ainda tem o desplante de dizer que na A6 já apanhou duas multas por excesso de velocidade, ou seja, por duas vezes foi multado num ‘instantinho’.

Nesta A6, foi uma vez apanhado em excesso de velocidade - um ‘instantinho’ de cerca de 224Km/h - o Dirigente da Associação Portuguesa das Escolas de Condução, Alcino Cruz. Este ‘dirigente’ admitiu que conduzia em excesso de velocidade, alegando porém que a natureza da via e as condições de segurança do veículo, um Mercedes 270, não representavam perigo nem para si e para a sua mulher, nem para os outros condutores, “que não existiam porque a estrada, àquela hora, entre as 14h00 e as 15h00, estava deserta”. Para MST, como este senhor teve ‘mãozinhas’ para dominar o seu bólide a 224km/h e não teve um acidente, só pode ser um bestial.

Outra coisa. Esta A6 e a A2, por exemplo, são auto-estradas bastante ‘rectilíneas’ e com pouco trânsito, ou seja, extremamente monótonas. Assim, apesar de só 10% dos acidentes ocorrerem na auto-estrada, numa situação de monotonia e com pouco trânsito – num claro convite ao ‘instantinho – existe a possibilidade do condutor ficar sonolento. Esse factor aumenta, se no meio da monotonia formos conduzir com uns salmonetes no bucho, empurrados à custa de um branquinho fresquinho (note-se, sem nunca passar os ditos 0.5g/l de álcool no sangue). Nessa situação, ao longo de rectas intermináveis no deserto alentejano, sem carros à vista, sozinhos mas a pensar no artigo que temos que escrever para o Expresso, existe a possibilidade de em milissegundos fecharmos os olhos a passarmos a ser bestas. Dá que pensar.
Refira-se que na A2, muitos dos acidentes que aconteceram, deveram-se ao facto da viatura, sem razão aparente, sair da sua faixa, galgar a vala central e invadir a faixa contrária com consequente choque frontal. Besta.

É bom distinguir as coisas. O MST é um bestial que escreve livros como o ‘Equador’. Só lamento que não se fique só pelos livros. É que quando escreve artigos deste tipo, consegue ser uma autêntica besta.

Ano de 2006 poderá ser o primeiro a registar menos de mil mortos na estrada

Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada, instituído em 2002 pelo Papa João Paulo II

Dia Mundial em Memória das Vítimas da Estrada assinalado por todo o país

CONDUZIA A 224 KM/H E FICOU IMPUNE

Vidas que mudam em milissegundos

5 Comentário(s):

At 11/20/2006 02:17:00 p.m., Anonymous Anónimo disse:

É demasiado surreal para ser verdade... Nem sei que dizer...
Neste momento tenho um amigo em coma, teve um acidente de carro na sexta-feira...

 
At 11/20/2006 08:02:00 p.m., Blogger HRocha disse:

Este tema é bastante importante e merece ser discutido. Em vez de bestas vs bestiais podiamos bem ter vítimas vs criminosos.

Sempre fui um "maricas" ao volante (sem ofensa para os "maricas"). Há duas razões para isso. Uma egoísta (gasta-se menos gasolina evitando as altas velocidades) e outra altruista (a estrada é de todos e tem regras que existem para serem respeitadas!) Infelizmente a opinião do MST vai de encontro à de muito tipo bestial que para aí anda. Se só os bestiais viram-se vítimas eu não perdia muito tempo a pensar nisto, mas infelizmente os acompanhantes dos bestiais (muitas vezes os filhos) ou outros utentes das vias públicas são as vítimas e estes são invariavelmente os criminosos.

 
At 11/22/2006 06:28:00 p.m., Blogger V andrade disse:

Eu fico doente com a falta de civismo das pessoas ao volante. Como é que é possível?? As pessoas transformam-se quando têm um carro nas mãos. Eu já vi pessoas super calmas a ter atitudes assassinas na estrada. Um carro é uma arma e era tão produtivo que as pessoas tivessem consciência disso...

Quanto à besta/bestial em causa... Pois é por estas e por outras que eu resisti dois anos a ler o "Equador".

"90% das mortes na estrada, em Portugal, acontecem fora da auto-estrada; e 90% das multas por excesso de velocidade são cobradas na auto-estrada" - se não houvesse vigilância na auto-estrada será que apenas de 10% das mortes na estrada ocorreriam aí. É que a vigilância também serve para essas coisas e não apenas (apesar de dar muito jeito) para encher os cofres do estado.

 
At 11/24/2006 08:36:00 a.m., Anonymous Anónimo disse:

Este comentário foi removido por um gestor do blogue.

 
At 11/24/2006 08:38:00 a.m., Anonymous Anónimo disse:

Acho que este post merece o "

"No comments III".

Não pelo post, mas sim pela "besta" do MST.

 

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