Há coisas que não se dizem!
Quando somos pequenos, podemos dizer tudo o que pensamos. Quanto muito, ouvimos um “Luis Miguel! Não se diz isso que é feio!”.
Quando estamos com uma criança e ela nos diz “tu é muta feio!”, nós aceitamos porque a uma criança tudo se perdoa. Quando crescemos, tomamos consciência que há pensamentos que devem ficar confinados a uma zona do cérebro, com o nome “caixa-para-guardar-tudo-o-que-pensou-mas-não-deve-dizer”.

O problema é que algumas pessoas, adiante designadas por ‘desbocadas’, por algum motivo genético – dirão uns – não nasceram com um centro de auto censura implantado no hemisfério direito do cérebro – aquele que comanda a fala. Assim, não têm um conjunto de neurónios, dotados de lápis azuis, que consigam riscar os pensamentos mais impróprios, impedindo-os de serem comunicados para o altifalante do sistema de som do corpo.
Estas pessoas apenas devem ter um único ‘fiscal’ para todo o cérebro. Perante tão grande caudal de pensamentos impróprios, este apenas consegue correr cérebro abaixo a gritar “Agarra que é um pensamento impróprio! Agarra o gajo! Por favor, não o deixem chegar à boca!”.
O pior destas pessoas, com um ‘gatilho sensível’ no que toca à expressão verbal, é justificarem-se dizendo: “Eu cá sou uma pessoa muito franca. O que tenho para dizer, digo, e não ando aqui com ‘coisas’”. Mas alguém lhes pediu sinceridade? Será que não entendem que há coisas que se podem pensar mas que não podem ser ‘disparadas’?
Falar de assuntos gordurosos: andamos nós a pensar que aquilo do ‘Linea Zero’, ‘Light’, ‘Corpos Danone’ e outros tais que levem ‘Aloe Vera’, são eficazes, quando encontramos alguém de ‘gatilho sensível’ que já não vemos há um certo tempo. Ainda estamos a estender a mão e já ouvimos: “Eh pá, você tá gordo! Bolas, tá mesmo gordo. Caramba, isso é que é, só docinhos, não?” – uns minutos depois – “Bolas, isso é que é. Quem o viu e quem o vê!”.
Educadamente, podemos sempre dizer: “É verdade, é verdade. Mas há um ano atrás era bem pior. “‘Prazer’ – a remoer entre os dentes – em vê-lo!”.
Falar de doenças: andamos nós preocupados com uma ‘coisa’ que não sabemos o que é, p.e. uma tosse com comichão e arrepios na espinha seguida de suor abundante, quando temos o azar de falar ao telefone com um ‘gatilho sensível’ doutorado em medicina: “O quê? Tosse e arrepios? Eh pá, conheço um tipo que com uma coisa semelhante foi parar ao Hospital. Parecia uma borbulha, só que não era, começou a tomar antibióticos, blá, blá, …internamento, blá, blá,…biopsia, blá, blá - aqui, já não o estamos a ouvir”. Diga-se que estes ‘doutorados em medicina’ estão sempre presentes nas urgências dos Hospitais, preferindo no entanto os SAP pela manhã.

Falar de bebés: quando toca a bebés, são poucos os que têm um ‘gatilho sensível’. Eu sei que tudo é possível, mas, regra das regras, não há bebés feios. Ninguém, mesmo com ‘gatilho sensível’, será capaz de chegar ao pé de uma recente mãe e dizer: “Eh pá, é mesmo feio. Parece um gremlin!”, ou “Iiiii, que grandes orelhas! Até parece o Dumbo!”. Bom, tudo é possível.
Uma atitude conservadora que sempre tive, foi nunca pronunciar grandes opiniões sobre bebés, dos quais, não conheça o seu ‘histórico’. Assim, tenho a certeza de não ‘meter os pés pelas mãos’. Se na rua encontro uma senhora com um bebé num carrinho, digo: “Lindo bebé. Tão giro. Olha que engraçado. Olha que risonho.” e chega. Dizer mais do que isto pode trazer problemas. Por exemplo: “É mesmo a sua cara!” – resposta – “Ah! Mas eu sou só a ama!”. Ou, imaginem a tal senhora inglesa, que teve gémeos com cor de pele diferente, quando encontrar ‘desbocadas’ pelo caminho. O que irá ouvir dessas pessoas e o que irá responder?
Bom, isto tudo para chegar à seguinte história. Andava a minha princesa Mor a passear a princesa Jr no nosso carrinho de bebé tipo porta-aviões – maior que o U.S.S. Enterprise agora atracado em Lisboa – quando encontra uma rapariga que esteve com ela no recobro, após o trabalho que foi necessário efectuar para extrair a princesa Jr.
Essa rapariga - adiante designada por Sra. X – tinha tido conhecimento que a minha mulher dera à luz uma menina – linda, por sinal, mas é apenas um comentário de pai babado. Mais, durante dois dias, tinha estado junto à minha mulher no Hospital.
Então, não é que ao fim de cinco meses, a Sra. X vê a minha mulher, olha para a princesa Jr. E pergunta: “Ah! Então não tinha tido uma menina?”
Mas é coisa que se diga? A miúda tinha que estar vestida de cor-de-rosa? Se a Sra. X soubera no hospital que o bebé era do sexo feminino, que raio teria acontecido entretanto à miúda? Teria mudado de sexo em cinco meses?
Há coisas que não se dizem!
E vocês? Conhecem muitos ‘desbocados’?

4 Comentário(s):
Mr. Anderson (será que também é Luís Miguel) acho o seu post deveras pertinente. Conheço alguns ‘desbocados’ e deve haver muitos exemplares à solta. Mas discordo que seja genético. É uma questão de feitio (má educação dirão os ‘desbocados’). Por norma um ‘desbocado’ tem orgulho em o ser, e gaba-se de dizer sempre o que pensa, pensando que desta forma está a ser uma pessoa «às direitas» (esta expressão é só para picar os de esquerda). Os ‘desbocados’ que não o são conscientemente têm outro nome na minha gíria: palermas. Acredito que quem blasfemou contra a sua princesa Jr deve pertencer a esta última categoria.
Mr. Anderson, belo post!
Confesso que… já fui um bocadinho desbocada (mas só um bocadinho…). Acontecia-me vastas vezes dizer coisas e, minutos seguintes, pensar “mas como é que eu fui dizer aquilo…”. Existe uma fronteira muito ténue entre ser frontal e ser mal-educado e às vezes não é difícil transpô-la. Hoje penso que tenho o direito a ter uma opinião mas os outros têm o direito a não a querer ouvir. Perde-se em frontalidade mas ganha-se em educação.
Eu encontro muito desbocados, principalmente na minha profissão. Aind aontem tive um caso típico de "desbocamento"! Há uns que realmente é preciso ficar muito firme, se não só à estalada!
Por outro lado, por vezes também eu sou desbocada... porque me arrependo logo de seguida de ter dito aquilo. Enfim, ninguém é perfeito, mas há uns que exageram!
Olá,
Precisa de um crédito express ? Oferecemos créditos
2000EUROS para 720000EUROS com resposta em 48 horas, se você fizer
não é o objecto de acção judicial.
É simples, rápida e discreta. Mais informações, entre em contato conosco
contactado.
E-mail:moniquetheo@outlook.fr
Enviar um comentário
<< Home