sábado, outubro 28, 2006

"Dor de cotovelo" - Parte II

A resposta do Miguel Sousa Tavares hoje no Expresso:

(...)Mas não há nada melhor para confirmar ou desmentir uma teoria do que experimentar-lhe os efeitos. No meu caso pessoal, as experiências que conheço têm sido eloquentes: por duas vezes me foram atribuídos na Net e postos a circular textos que não tinha escrito e cujo conteúdo repudiava veementemente; o mais longe que consegui desfazer a falsificação foi o círculo de amigos que me falaram no assunto. De outra vez, deram-me a conhecer a existência de um blogue onde um autor anónimo se dedicara a fazer a minha biografia, acrescentada posteriormente por toda uma série de contribuições igualmente anónimas: eram 27 páginas de conteúdo (!), mas bastou-me ler as duas primeiras para desligar, enojado com a capacidade de invenção, difamação grave e cobardia que aquilo revelava. Esta semana, enfim, estava-me reservada mais uma experiência do género.Um qualquer tipo dera-se ao trabalho de pegar num romance meu, manipulá-lo devidamente (por exemplo, pegando num início de frase e acrescentando-lhe outro situado 12 páginas adiante), para afirmar, sem estremecer, que todo o meu livro era um plágio do outro, “uma fraude sem pudor”. Uma hora depois de este blogue ter nascido, exclusivamente dedicado a acusar-me de plágio, um jornal telefonava-me para casa a pedir um comentário à “acusação”. Primeiro, pensei que estavam a brincar, depois percebi que levavam a coisa a sério e tentei mostrar o absurdo daquilo: o meu livro era um romance histórico, em que os personagens principais eram todos ficcionados, assim como a história, o outro era um livro de história, um relato jornalístico do mandato do último vice-rei inglês da Índia, em que os personagens eram o Mountbatten, o Nehru, o Ghandi, o Jidah; o meu livro situava-se em 1905, em São Tomé, o outro em 1949, na Índia; o meu tratava da escravatura nas roças de cacau de São Tomé, a par de uma trama amorosa, o outro tratava da independência da Índia; enfim, como se perceberia, simplesmente, lendo-os, tanto a construção narrativa como a escrita eram obviamente diferentes, tratando-se de géneros literários totalmente diferentes. Mas o autor do blogue revelava-se um profissional da manipulação: ele pegava em excertos afastados entre si da versão inglesa do outro livro, colava-os como se fossem uma só frase, comparando-os então com outras frases minhas a que chamava “tradução” e que um jornal dizia serem “frases inteiras iguais”. Mas iguais eram apenas os factos nelas contidos: os dados biográficos de quatro marajás da Índia. Ora, como tentei explicar, qualquer pessoa percebe que um romance histórico ou um livro de história, quando chega aos factos reais, tem de recorrer a fontes, que são outros livros ou documentos preexistentes. De outro modo, não os tendo vivido, ao autor só restaria inventá-los ou distorcê-los, para não ser considerado plagiador: eu deveria então ter trocado os nomes ou os dados biográficos dos marajás que convoquei, assim como os do senhor D. Carlos ou de outros personagens históricos que entram no meu romance. Em vez disso, limitei-me a fazer uma coisa que nem sequer é habitual neste género literário: identifiquei as fontes a que recorri, entre as quais o tal livro que o anónimo da Net me acusava de ter copiado - ou seja, deixei as pistas todas para ser ‘apanhado’. Porém, o meu Torquemada concluiu ao contrário: se eu citava 29 livros como elementos “de consulta do autor” e se ele, recorrendo apenas a um deles, encontrara semelhanças com duas páginas das 518 do meu livro, era caso para “esfregar as mãos de contentamento, partindo à descoberta de mais algumas pérolas da exploração do trabalho alheio”.Infelizmente, ninguém se deu a esse trabalho ou menos até. Debalde, tentei explicar ao enxame de jornalistas que imediatamente me caiu em cima que o simples facto de darem eco àquele blogue anónimo, sem verificarem previamente o fundamento da acusação gravíssima que me era feita, equivalia a transformar uma mentira privada, ditada pelo despeito e inveja, numa calúnia produzida à vista de milhares. Com esta agravante decisiva: o único meio de que disponho para defender eficazmente a minha honra e o meu trabalho, que é o tribunal, está-me vedado, pois não sei de quem me queixar e quem fazer condenar como caluniador. Não sendo esta a regra, como poderá alguém, por exemplo, defender-se convincentemente de um blogue anónimo que o acuse de pedofilia, tráfico de drogas ou qualquer outra coisa abominável? Tentei explicar que, perante isto, não bastava reproduzirem a acusação e ouvirem a minha defesa. Era pelo menos necessário que lessem os dois livros e percebessem que tudo aquilo era absurdo e que a aposta deste manipulador anónimo era justamente a de que os jornalistas não se dessem a incómodos.Foi tudo em vão, claro. Responderam-me que o outro livro não estava disponível em Portugal e que, “face à gravidade da acusação” (justamente...), não se podia ignorar o assunto, pois, como me explicou sabiamente um jornalista eufórico, “a bola de neve está a correr e é imparável”. E correu. E foi. Dos tablóides ao respeitável ‘Público’ - onde, confessando-me não ter conseguido obter o livro supostamente plagiado (e, se calhar, sem sequer ter lido o meu...), uma jornalista escreveu, preto no branco: “Há muitas ideias parecidas e frases praticamente iguais”. E, assim, com esta ligeireza, se suja a honra de uma pessoa e se enxovalham anos e anos a fio de trabalho, esforço e imaginação.O que já sabia dos blogues confirmei: em grande parte, este é o paraíso do discurso impune, da cobardia mais desenvergonhada, da desforra dos medíocres e dessa tão velha e tão trágica doença portuguesa que é a inveja. Mas fiquei a saber, e não sabia, que os blogues, mesmo anónimos, são uma fonte de informação privilegiada e credível para o nosso jornalismo.

8 Comentário(s):

At 10/28/2006 03:40:00 p.m., Anonymous Anónimo disse:

Por outras palavras, o MST fez um ataque desenfreado a todos os blogs... incluindo o vosso, apesar de não o ter especificado concretamente. Vocês não se deviam ficar e tomar uma posição séria e corrosiva sobre o assunto.

 
At 10/28/2006 03:44:00 p.m., Blogger bluewater68 disse:

O MST que vá prá badamerda e que enfie o Equador pelo *** acima.
Até digo mais, o MST e a Floribela num barco enviado para alto mar com o nome Titanic.

 
At 10/28/2006 06:38:00 p.m., Blogger bluewater68 disse:

No post anterior, respondi a quente. Depois, li no Jornal (sim, In Loco) o artigo do MST.
Ponderei. Agora, com calma, venho dar outro comentário:
Ó MST, tú vai prá badamarda!
Tás a enfiar todos os blogues no mesmo saco?
O que é que tú queres? que eu coloque aqui o meu BI e o NC para te poder mandar prá Badamerda?
Costuma-se dizer que quem se pica é porque...é porque...olha, nem me lembro.
Agora, se fizeste um artigo sobre o assunto é porque estás mesmo com problemas.
Sinceramente. És o maior. Pedante e prepotente do ca...
Se tivesse aqui uma cópia do "Equador", utilizava já a mesma para matar as moscas que aqui rondam. Como sou 'brutamontes' e não leio, não posso fazer tal coisa.
O gajo do blogue deve mesmo ter-te afectado.
Mas deixa lá. Com a minha excepção, o resto dos bloguistas desta zona, que são todos uns cobardes que não se identificam (eu inclusivé), gostam todos muito de ti. És o maior.

 
At 10/28/2006 06:45:00 p.m., Anonymous Anónimo disse:

Mariazinha, minha querida:

Se eu simpatizasse minimamente com este senhor dignava-me a escrever pelo menos uma linhazita sobre o assunto mas, como não é o caso, prefiro debruçar-me sobre outro tema que, pelo menos a mim, me é muito particular.

Como poderá deduzir, adormeci três vezes antes de conseguir ler todo o seu post...o que foi chato já que, quando cheguei ao fim, já não fazia ideia de qual era o assunto, pelo que tive de voltar a ler tudo do princípio.

Apelo a que distribua a sua mensagem por dois ou três posts (tipo: "Dor de cotovelo II - parte I", "Dor de cotovelo II - parte II", e por aí fora...), alternando com uns bonecos a ilustrar a coisa, não sei... Ou então um ficheiro audio em que dissertaria toda a sua mensagem enquanto uma musiquinha dos Trama ía soando como fundo, hein???

Divulgação e informação...lado a lado, hein?

Tenho a certeza que terá as minhas sugestões em consideração, pelo que desde já agradeço a atenção prestada.

Cumprimentos

 
At 10/28/2006 07:14:00 p.m., Anonymous Anónimo disse:

Exmo. Sr. (longe da) ponta do mexilhoeiro, as suas sestas (entre o post) apuraram-lhe o sentido de humor...hein?
Obrigada pelas suas recomendações... Mas isso de divulgar os Trama assim... não tem nada a ver...hein?
Não lhe parece? ;)

 
At 10/28/2006 08:43:00 p.m., Blogger bluewater68 disse:

Ai que temos namorico por aqui.

 
At 10/29/2006 01:37:00 a.m., Anonymous Anónimo disse:

Sr. Mr Anderson, peço-lhe, então, que se identifique, para poder agir em conformidade, pelos impropérios e injúrias ao meu bom nome.

Miguel Sousa Tavares

 
At 10/29/2006 09:39:00 a.m., Blogger HRocha disse:

Ó mst vai prá badamerda!

Quanto ao MST já disse que por norma concordo com ele não só por defendermos as mesmas cores mas porque as opiniões são muitas vezes coincidentes. Mas não desta vez. Se bem que concorde com o direito à defesa, discordo do direito ao ataque a pessoas que tal como ele nada de mal fizeram. Ao atacar todos os blogs MST está a cometer a mesmo pecado de que se queixa. E mesmo que aqui fossem ditas coisas que ele não gosta e das quais não se pode defender, o MST faz isso constantemente nos comentários que emite para um público muito mais vasto ao vivo e a cores num canal de televisão (por isso é tão odidado) e em vários órgãos de comunicação social. Por isso vá prá badamerda (mas só desta vez).

 

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